Covid-19: as sequelas emocionais e neurológicas da doença
Mesmo após a recuperação, pessoas que foram contaminadas pelo Covid-19 vêm sofrendo com sentimentos negativos persistentes
Quem já teve coronavírus provavelmente precisou conviver com algumas sequelas físicas da doença, como cansaço exacerbado, dores no corpo, enxaqueca e falta de ar. Estes “efeitos colaterais” podem durar por semanas ou até meses após o contágio, gerando bastante angústia em quem sofre com eles. Porém, pouco se discute sobre as sequelas emocionais deste vírus.
Mesmo em casos leves, testar positivo para o Covid-19 pode ser bastante traumático: sentimos medo de morrer, passar a doença para outras pessoas e perder entes queridos. Apenas esses pensamentos são capazes de gerar impactos negativos em nossa saúde mental.
E a situação não para por aí: um estudo recente divulgado pelo New York Times revelou que a contaminação por SARS-CoV-2 pode provocar a diminuição de zonas cerebrais responsáveis por inúmeras funções, incluindo as emoções. Portanto, a pergunta que fica é: como isso impacta o dia a dia de quem pegou a doença? Os nossos sentimentos podem ser afetados a longo prazo após contraí-la?
Para entender isso, Claudia conversou com Alessandra Kovac — psicóloga freudiana —, Taíssa Ferrari Marinho — neurologista e neurofisiologista clínica — e os neurocirurgiões Ricardo Santos de Oliveira e Marcelo Campos Moraes Amato. Confira a seguir:
O peso emocional da contaminação por coronavírus
Antes de discutir sobre as possíveis sequelas emocionais e neurológicas do coronavírus, é necessário reiterar que apenas a contaminação pela doença é capaz de se transformar num evento traumático. “O coronavírus chegou de forma inesperada, desconhecida e perigosa. Apenas estes traços são o suficiente para afetar o emocional de qualquer pessoa. Testar positivo significa que essa ameaça se tornou real a um nível pessoal. Por isso, os pacientes sentem preocupação, insegurança, ansiedade e tristeza de forma bastante intensas”, explica a psicóloga Alessandra Kovac.
Em casos de indivíduos que já convivem com a ansiedade ou depressão, os impactos de contrair a doença podem ser ainda maiores. Segundo Alessandra, é extremamente desafiador estar sensibilizado por esses distúrbios emocionais e, ao mesmo tempo, precisar lidar com interferências do mundo externo. Em outras palavras, manter o equilíbrio diante de um mundo em caos pode ser ainda mais difícil para quem luta contra quadros depressivos ou ansiosos.
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Me recuperei e continuo sentindo emoções negativas. E agora?
Alessandra relembra que a tristeza e a irritação são reações emocionais comuns a maioria das situações conflitivas ou traumáticas que vivenciamos. Portanto, mesmo após se recuperar da Covid-19, é normal que você leve um tempo para se restabelecer emocionalmente. Aliás, isso não significa necessariamente que estamos sequelados: “Na maioria das vezes, o incômodo vai diminuindo conforme a pessoa vai retomando a sua rotina.”
De acordo com a especialista, as temidas “sequelas psíquicas” são mais frequentes em pacientes que vivenciaram quadros graves e passaram até mesmo por hospitalização. Nestes casos, a doença pode se transformar num verdadeiro trauma: “Não é incomum que alguns desenvolvam ansiedade ou depressão após a recuperação. Mas é sempre bom lembrar que todos os tipos de traumas possuem tratamento e cura.”
”O ser humano quase sempre se desespera quando a situação foge do controle. Para diminuir esse medo, é importante confiar na ciência. Ela vem buscando, a cada dia, entender e tratar as sequelas da melhor forma possível”, indica Kovac.
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Impactos instantâneos do coronavírus no cérebro
“No início da pandemia, acreditávamos que esta era uma doença exclusiva do sistema respiratório. Porém, alguns sintomas como tontura, dores de cabeça e a perda do paladar e olfato foram provando que o vírus também acometia o sistema nervoso”, explicam os neurocirurgiões Ricardo Santos de Oliveira e Marcelo Campos Moraes Amato.
“Estes foram apenas os sinais iniciais. Hoje, é crescente o número de infecções que afetam tanto o sistema nervoso central — causando encefalopatias e acidentes vasculares — quanto o sistema nervoso periférico, provocando disfunções do paladar e olfato e até mesmo a Síndrome de Guillain-Barré”, afirma a dupla de neurocirurgiões.
Covid-19 pode comprometer o cérebro a longo prazo?
Além dos impactos instantâneos, há a possibilidade de sequelas posteriores: “Alguns pacientes acabam sofrendo com eventos vasculares no sistema nervoso central, como isquemia e trombose venosa. Dependendo da região cerebral em que acontecem, essas complicações podem causar danos irreversíveis”, alerta a neurologista Taíssa Ferrari. “Dificuldades para movimentar partes do corpo, alterações na fala, falhas de memória e concentração reduzida também podem estar entre os efeitos colaterais do Covid-19”, elucida.
“Além dessas sequelas neurológicas, também venho percebendo um aumento significativo nos transtornos de humor após o início da pandemia. Ainda não sabemos exatamente se isso está acontecendo por interferência direta do vírus no sistema nervoso central ou indiretamente por todo o cenário que a pandemia provoca. Mas para mim, é claro: um número muito maior de pessoas está relatando queixas relacionadas a depressão e ansiedade nos consultórios de neurologia”, conclui a especialista.
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Proteção contra o Covid-19 continua importante
Vale lembrar que não queremos promover o pânico acerca da contaminação por coronavírus. Porém, é necessário conhecer todos os impactos da doença para entender a importância de continuar se protegendo. Use máscaras, utilize álcool gel, evite aglomerações e o mais importante: vacine-se.
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